Prosperar

Gestão de Pessoas e Saúde Mental na Lei 14.831/2024: Do Cumprimento de Normas ao Cuidado Humano

Artigo inspirado no artigo “Saúde mental e a filosofia: um diálogo para o bem viver” – Revista Esfinge


Quando cumprir a lei não é suficiente

A aprovação da Lei nº 14.831/2024, que institui o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, representa um avanço histórico para o Brasil. Ela oferece um selo às organizações que desenvolvem ações voltadas ao cuidado com a saúde mental de seus colaboradores. Mas, para quem está na gestão de pessoas, a lei também é um desafio silencioso: como transformar diretrizes em cuidado real? Como ir além de checklists, formulários e políticas e tocar naquilo que realmente adoece ou fortalece o ser humano?

Se você é gestor de pessoas, talvez já tenha percebido: a raiz do problema da saúde mental no trabalho não está apenas na falta de programas, mas na ausência de formação interior. É por isso que este artigo convida você a olhar com profundidade o que está em jogo: a mente, o corpo e o espírito no ambiente organizacional.


A tríade esquecida: corpo, psique e espírito

Os filósofos gregos compreendiam o ser humano como uma síntese de três dimensões:

  • Soma: o corpo físico, mortal e perecível.

  • Psique: a alma sensível, das emoções, desejos e instabilidades.

  • Nous: a inteligência espiritual, a parte mais elevada e imutável do ser.

A gestão de pessoas, quando se limita ao soma — ao corpo funcional do colaborador — falha em compreender a complexidade do ser humano. É preciso enxergar a psique com suas dores emocionais, medos, cansaços, esperanças e frustrações. E mais ainda: reconhecer que cada indivíduo carrega também um nous — uma vocação interior à inteligência, à beleza, à transcendência.

Neste sentido, um programa de saúde mental que atenda à nova lei será sempre limitado se não houver um despertar filosófico para o cuidado integral do ser humano.


A psique em desequilíbrio: sintomas de um mundo desconectado

Ansiedade, depressão, esgotamento emocional, irritabilidade crônica. Os sintomas da psique adoecida aparecem com frequência nas organizações, mas muitas vezes são tratados como questões “de foro íntimo”, ou transferidos para o setor de benefícios ou medicina do trabalho. Mas como disse o médico e filósofo Bernardo Norah:

“Às vezes, a pessoa passa por uma crise de ansiedade e ninguém nunca a ensinou a fazer uma respiração profunda.”

As emoções, quando não são educadas, podem tornar a psique escrava do corpo — dos impulsos, da exaustão, do automatismo da rotina. Segundo Platão, a alma precisa ser guiada pela razão e treinada pela arte, pelo silêncio e pela reflexão. Sem isso, adoecemos emocionalmente por excesso de estímulos e falta de sentido.


O verdadeiro papel do gestor de pessoas: ser ponte, não só gestor

A nova Lei 14.831/2024 define critérios e metas para o reconhecimento das empresas que promovem saúde mental. Mas quem transforma o texto da lei em prática viva é o gestor de pessoas. E esse papel exige mais que ferramentas. Exige visão filosófica, escuta ativa, presença, discernimento e sensibilidade.

Na prática, isso significa:

  • Criar espaços reais de escuta e acolhimento.

  • Formar lideranças com consciência emocional e ética.

  • Valorizar o tempo humano — sem romantizar a produtividade tóxica.

  • Educar o olhar da equipe para reconhecer ciclos naturais da vida (inclusive a dor e o cansaço).

  • Propor ações que fortaleçam a autonomia, o senso de propósito e o autoconhecimento.

Cumprir a lei é necessário. Mas é o cuidado humano que transforma.


A filosofia como ferramenta de gestão

Pode parecer ousado, mas sim — a filosofia é uma ferramenta poderosa para a gestão de pessoas. Desde Platão, Sêneca e Buda até Viktor Frankl e Carl Jung, os grandes mestres sempre defenderam que o ser humano precisa refletir sobre si mesmo, sobre o sentido da vida e sobre sua natureza múltipla para manter sua saúde mental.

A psique, dizem os gregos, é como uma mariposa: frágil, mas capaz de voar rumo ao céu — se for bem guiada. Esse é o papel do gestor-filosófico: ajudar o outro a cuidar da própria alma.


Um convite final: da norma ao despertar

A Lei 14.831/2024 é bem-vinda. Mas se não vier acompanhada de um despertar de consciência nas lideranças, será apenas mais um selo decorativo em um ambiente adoecido.

Se você é gestor de pessoas, o seu papel é mais nobre do que parece. Você está no ponto de contato entre a estrutura e a alma da organização. E isso exige coragem para ir além do que é exigido — e fazer o que é essencial.

Porque cuidar da saúde mental não é só uma norma a ser cumprida.
É uma sabedoria a ser lembrada.